São destaques nesta edição de atualização de maio de 2011

 os seguintes textos:

1- RESENHA

Juventudes, subjetivações e violências.

Maria Theresa da Costa BarrosI; Stela Luiza de Moura AranhaII

 

2-ARTIGO

 

-O Darwinismo e a Obesidade Moderna – Teoria da Evolução

Medical News Today

Boa leitura!

1- RESENHA:

Juventudes, subjetivações e violências.
 

Maria Theresa da Costa Barros

Psicologia Clínica
version ISSN 0103-5665
Psicol. clin. vol.22 no.2 Rio de Janeiro 2010
doi: 10.1590/S0103-56652010000200013
 

RESENHA

Juventudes, subjetivações e violências

Youth, violence and subjectivations



Maria Theresa da Costa BarrosI; Stela Luiza de Moura AranhaII
IMestre em Teoria Psicanalítica pelo Instituto de Psicologia da UFRJ, doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, pós-doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, pesquisadora do Grupo EPOS, vinculado ao Instituto de Medicina Social da UERJ
IIMestre em Psicologia (Psicologia Clínica) pela PUC-Rio, doutora em Saúde Mental pela Universidade Estadual de Campinas (1999), pós-doutoranda pelo IMS-UERJ na área Violência e subjetividade, professora adjunta da UNESA

RESENHA DE:


Bocayuva, H. & Nunes, S. A. (Orgs.). (2009). Juventudes, subjetivações e violências. Rio de Janeiro: Contra Capa, 160 páginas.
Juventudes, subjetivações e violências oferece ao leitor contribuições de especialistas provenientes dos mais diversos campos do saber: antropologia, direito, história, literatura, psicanálise, psicologia e sociologia. Promove um debate fecundo sobre uma questão que, certamente, se encontra entre as mais importantes levantadas nos últimos tempos: o campo da produção das subjetivações em sua relação com as violências, marca indubitável das juventudes brasileiras desde a época das lutas contra a escravatura. Essa questão atravessa todo o século XX e, nesta primeira década do século XXI, constitui-se num verdadeiro desafio para as políticas públicas da infância e da adolescência no Brasil.
O sucesso deste empreendimento pode ser mensurado não apenas pelas respostas que estes especialistas deram a essa indagação, mas também pelo emprego de uma metodologia de reflexão genealógica, inspirada particularmente no discurso de Michel Foucault. Essa metodologia tem sido utilizada pelo "Grupo EPOS" em seus projetos de pesquisa, cuja trajetória, nesses últimos 2 anos, sob a orientação e coordenação do psicanalista e professor Joel Birman, no campo da Saúde Coletiva, tem reunido um grupo de pesquisadores pós-doutores, pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). O presente livro, organizado por duas de suas integrantes - Helena Bocayuva e Sílvia Alexim Nunes -, constitui um primeiro produto fruto deste trabalho coletivo.
O eixo que norteia esta publicação encontra-se sintetizado nas palavras de Vera Malaguti Batista: "De volta ao Brasil, a criminalização da infância e da juventude pobre é uma permanência histórica: da catequese dos indiozinhos sem alma aos filhos dos escravos, a República não produziu nenhuma ruptura nesse marco social" (Batista, 2009: 97).
Essa direção vai sendo tecida pela trama das linhas de pensamento enunciadas pelos diferentes autores que convergem, todavia, na construção de uma discursividade multidisciplinar e genealógica a respeito da problemática em pauta. Com intuito de proporcionar ao leitor uma apreensão mais imediata dessa pluralidade de perspectivas, tomamos a liberdade de reunir os artigos em quatro grupos temáticos, numa ordem de apresentação um pouco diferente daquela em que aparecem no livro.
A PRODUÇÃO DA EXCLUSÃO: Mary Del Priore inicia seu artigo colorindo, com as cores da brasilidade, as crianças e os jovens do nosso país: "seus rostinhos mulatos, brancos, negros, mestiços enfim desfilam na televisão, nos anúncios da mídia, nos rótulos dos mais variados gêneros de consumo" (Del Priore, 2009: 11). Em "Crianças e adolescentes de ontem e de hoje", a autora pega o leitor pela mão e, por meio de uma prosa fluente, convida-o a dar um passeio pelo universo das crianças e jovens que, por terem nascido no Brasil, desde os tempos coloniais nunca tiveram o acesso à educação facilitado. Para as crianças e jovens pobres, a saída sempre foi procurar fazer deles cidadãos úteis e produtivos na lavoura, e, em pleno século XX, as "classes subalternas" ainda continuam convencidas de que o trabalho continua sendo a melhor escola. Por isso, não chega a ser surpreendente quando identifica, já no século passado, a construção do personagem dos pivettes. Obrigados a conviver com os presos comuns, estes menores tiveram, enfim, seu acesso facilitado às primeiras escolas do crime e da violência. A ideia do menor carente como menor marginalizado aparece nesse período, e, até hoje, não foi possível encontrar nenhuma solução cabível para este problema. A autora faz uma aposta que este exercício de leitura genealógica, a respeito das condições de precariedade da educação e socialização das juventudes pobres brasileiras, possa dirigir o foco para iluminar a realidade atual. Del Priore aponta para uma ética, baseada no amor, como forma de combater o pior dos males que afligem as crianças e os jovens: o desamor, o descaso e a indiferença. Com Gizlene Neder descobrimos, por meio de uma pesquisa minuciosa e cuidadosa, os efeitos nada inócuos da Lei do Ventre Livre, de 1871: os embates "político e ideológico que marcaram o processo de discussão, aprovação e implementação da liberdade do ventre afetaram a vida cotidiana dos agentes históricos nele implicados" (Neder, 2009: 75).
Assim, em "Sentimento político, juventude e pobreza: subjetivações e exclusões", a autora traz à luz o debate que foi promovido naquela conjuntura histórica, ensejando políticas e instituições públicas na sociedade brasileira. Como marco teórico para esta reflexão, lança mão da discussão proposta por Pierre Legendre (1992) sobre os Estados na cultura política ocidental e a constituição das subjetividades implicadas em suas responsabilidades parentais. De acordo com essa perspectiva, a liberdade do ventre influenciou os sentimentos políticos relacionados às políticas públicas dirigidas à infância e juventudes pobres. Em suas considerações finais, Neder se pergunta se o processo de apropriação cultural e a circulação de novas ideias não teriam sido insuficientes para inibir as práticas, tanto culturais quanto institucionais, derivadas do escravismo, bem como os sentimentos e afetos relacionados ao pátrio poder dos senhores das escravas de ventre livre e a tentativa do Estado em exercer políticas públicas, anteriormente controladas pela Igreja. Como resultado dessa formação histórica e social temos, até hoje, uma predominância do descaso e da indiferença das políticas públicas voltadas para as juventudes pobres, numa relação direta com as culturas políticas institucionais. Concluindo este grupo temático sobre a produção da exclusão, Vera Malaguti Batista apresenta uma reconstrução histórico-sociológica sobre a constituição e consolidação do poder punitivo como um processo de controle social de longa duração no mundo Ocidental. Retoma a concepção de Massimo Pavarini que afirma que, "para entender o objeto criminológico, temos de nos reportar à demanda por ordem contextualizada no horizonte dos conflitos sociais" (Pavarini, 1983, citado por Batista, 2009: 91).
Em "A juventude na criminologia", a autora realiza um percurso que se inicia no século XIII, com o confisco do conflito das formações de justiça comunitária para as mãos de uma burocracia "especializada", e percorre a constituição do Estado absolutista, entre os séculos XVII e XVIII, onde identifica a transformação do poder punitivo em sistema penal. A juventude tem sido, ao longo da história, o objeto por excelência do poder punitivo, na medida em que constitui a energia fundamental para manutenção do mercado de mão-de-obra. Em 1602 aparecem as primeiras Rasphuis (casa de raspagem do pau-brasil), que apresentam o formato que antecede as prisões. São casas de trabalho coletivo e obrigatório que usam o argumento que irá se perenizar na história do Ocidente. A "salvação" dos jovens que enveredaram pelo caminho equivocado, evitando o enforcamento, ou seja, a morte, é lhes dar "um ofício e trabalho honesto realizado em temor a Deus" (Anitua, 2005: 66). Ao finalizar, a autora visa à criação de uma:
Perspectiva transformadora, as políticas para a infância e a juventude devem sair do marco imposto: vitimização/criminalização; voluntariado/encarceramento e o famigerado binômio prevenção/repressão. Romper com a internalização subjetiva da cultura punitiva é dar um passo adiante, mas o fundamental é olhar à frente, tendo em vista a incorporação da potência juvenil como protagonista da construção de uma outra história (Batista, 2009: 98).
COMO SÃO CONSTRUÍDAS AS SUBJETIVAÇÕES DOS QUE NÃO POSSUEM NENHUM LUGAR: Joel Birman configura um panorama que abrange a condição das juventudes brasileiras, particularmente daquelas juventudes moradoras das grandes metrópoles, tais como Rio de Janeiro e São Paulo: "[...] o imponderável caracteriza, de maneira efetiva, a relação da juventude com a ordem social. A imponderabilidade se impõe hoje em decorrência da impossibilidade vivida pela juventude em traçar de maneira segura as relações entre o presente e o futuro" (Birman, 2009: 25). Dessa forma, em "Juventude e condição adolescente na contemporaneidade: uma leitura da sociedade brasileira hoje", o autor debate e circunscreve, teoricamente, a distinção entre as palavras juventude e adolescência, cuja transformação na experiência das idades da vida conduziu ao que podemos perceber, na atualidade, como uma tendência ao apagamento da adolescência enquanto categoria social, o que marcaria a passagem da infância para a idade adulta. Nesse contexto, destaca os discursos que, no século XX, criticam o paradigma evolucionista do ser, pelo qual a vida se ordenaria entre nascimento e morte, e as idades da vida seriam discriminadas numa sequência linear. Birman aponta para um crescimento de uma tendência à violência tanto no plano nacional, quanto internacional. Todavia, destaca que, na atualidade, a presença da violência nas formas de subjetivação das juventudes está disseminada por todas as classes sociais. Após traçar este pano de fundo, contra o qual estão sendo produzidas as novas formas de subjetivação, o autor conclui propondo que o imaginário social da atualidade encontra-se mais afinado com o Mito de Hamlet do que com o Clássico Mito de Édipo. Enquanto este pensa a constituição das subjetividades pela diferença sexual, aquele se encontra mais concernido com a questão de ser ou não ser. Questão essa que marca as juventudes contemporâneas em seu desamparo e desalento, diante de uma ordem social na qual ser jovem significa não ter garantias de encontrar na sociedade um lugar legitimado. Cecília Coimbra e Maria Lívia do Nascimento circunscrevem algumas modalidades de subjetivações contemporâneas e consideram os processos de produção subjetiva como seu produto mais importante. Problematizam, em "Juventude normatizada, moralizada e violentada", como se dá, atualmente, a gestão da vida dos jovens e quais formas de subjetividades naturalizadas e essencializadas podem estar sendo fabricadas. Ao delinear os processos discursivos de biologização, normalização e moralização da juventude, verificam que as dicotomias existentes nos modos de subjetivação circunscrevem qualidades distintas para os jovens das elites e para os pobres, pelas quais os primeiros serão patologizados enquanto os últimos, criminalizados. Ao retomar, com Espinoza, a distinção entre moral e ética, apontam para o fato de que viver de forma ética, especialmente na juventude, pode ser visto como muito perigoso. Nesse sentido procuram redesenhar a ideia de resistência, hoje, em domínios diversos. Com Deleuze, apontam para a seguinte proposição:
Acreditar no mundo é o que nos falta: nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem do controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volumes reduzidos [...] É no nível de cada tentativa que se avalia a capacidade de resistência ou, ao contrário, a submissão a um controle. Necessita-se ao mesmo tempo de criação e povo (Deleuze, 1992: 218).
O desafio lançado pelas autoras é como descobrir formas éticas de viver no mundo, independente do fato de sermos jovens ou não.
OS PERSONAGENS QUE ENCARNAM AS SUBJETIVAÇÕES DA EXCLUSÃO: Ignácio Cano chama atenção para o fato de que, embora o fenômeno da violência protagonizado por jovens siga um padrão internacional - no Rio de Janeiro -, a intensidade com que se manifesta requer uma investigação mais apurada. Assim, sua proposta é explorar como a violência é vivenciada tanto pelo segmento jovem da população, quanto pelo restante. Em "A vivência subjetiva da violência entre os jovens do Rio de Janeiro", circunscreve o conceito de violência em suas múltiplas formas. Através dos relatos de jovens moradores das favelas, evidencia como esta violência se integrou em suas experiências de vida. Os mecanismos desenvolvidos para conviver com a violência vão da naturalização à legitimação. Há também uma discrepância entre os sentimentos de insegurança gerados pela presença da violência e os riscos reais, menores ou maiores, de estar exposto à mesma. Há uma equação entre imprevisibilidade e capacidade de suportar a violência. Outro aspecto sublinhado pelo autor está correlacionado com a possibilidade de atribuição de sentido frente à violência experimentada: sua impossibilidade torna o trauma psíquico decorrente da mesma ainda mais profundo. Marisa Feffermann torna visível a condição de trabalhador do jovem atuante no tráfico, ao traçar uma moldura sobre as relações entre o mundo do trabalho no capitalismo globalizado e a indústria cultural, cuja função é promover sua reprodução ampliada, contribuindo dessa forma para uma falsificação nas formações das subjetividades na atualidade.
Em "Os jovens inscritos no tráfico de drogas: os trabalhadores ilegais e invisíveis/visíveis", a autora analisa o tráfico de drogas como uma indústria que funciona sob os efeitos de uma mesma lógica do capital. Seus trabalhadores são sacrificados em todas as etapas inerentes ao processo de produção. Encontram-se submetidos tanto à dominação, quanto ao sofrimento advindo das condições sociais injustas que são reproduzidas na sociedade. Se os locais para distribuição do produto, por exemplo, devem ser protegidos para dificultar o acesso dos representantes do aparato repressor, a proteção dos jovens trabalhadores não parece representar nenhum problema que precise ser solucionado, pois todos sabem que se deve pagar com a própria vida o risco implicado em sua atividade laboral. Mas o empenho da indústria cultural coloca esses jovens, que figuram em primeiro lugar nas estatísticas policiais de morte por homicídio, como a razão principal de toda a violência embutida nesse tipo de produção industrial. Heróis anônimos e desperdiçados de uma sociedade onde se vale pelo que se tem, e que por isso não temem arriscar suas vidas para poder ostentar os ícones da lógica do capital na qual estão sendo subjetivados: a competição, o poder, a astúcia, as mulheres, o dinheiro, o carro, as armas etc. Repetem, assim, os mesmos mecanismos de opressão e dominação vigentes no mundo regido por uma economia legal, dentro de uma lógica capitalista das relações de trabalho.
Encerrando este grupo temático, João Camillo Penna correlaciona duas cenas emblemáticas da literatura brasileira, "Canudos" e "Carandiru". Por meio de uma pesquisa conduzida minuciosamente, puxa um fio histórico imaginário capaz de ligar, interpretar e correlacionar fatos aparentemente desconexos e separados no espaço e no tempo. Procura, assim, evidenciar uma questão bastante complexa que é a revelação do "binômio da penalização e culturalização da pobreza brasileira" (Penna, 2009: 102). Em "Sujeitos da pena", revela que a aparente justificativa "política" é só a superfície de uma razão de Estado, em verdade muito mais profunda, biopolítica. O que foi designado por Michel Foucault como gestão estatal da população concebida como patrimônio biológico a ser defendido. Nas palavras de Foucault: "é por intermédio do biopoder, sob a forma de racismo, portanto, que se assegura a função assassina do Estado estruturado com base no imaginário da guerra civil contra seus inimigos sociais coletivizados" (Foucault, 1975-1976, citado por Penna, 2009: 104).
Ainda nessa primeira parte, Variações em torno de um massacre, o autor descreve mais três cenas que serão objeto de discussão da segunda parte, Crítica da subjetivação, sobre aquilo de que servem de testemunho, ou seja, a ambígua subjetivação penal e cultural brasileira, em suas múltiplas figurações do inimigo social. O autor considera plausível formular uma hipótese inicial de leitura da cultura contemporânea brasileira:
As mediações que antes existiam (e, quem sabe, abundavam) entre estratos distintos da sociedade, responsáveis pelas formas culturais reconhecidamente mais bem-sucedidas do Brasil, como Machado, o samba e o futebol, não seriam mais possíveis diante de um cenário de segmentação radical, crescente, como o que define a atual cidade brasileira e, em especial, sua ex-capital, dividida entre os diversos comandos do narcotráfico, as milícias e enclaves fortificados das classes altas, protegidos por seguranças privados etc., vale dizer, por uma estratificação territorial dos espaços de contato e circulação (Penna, 2009: 111).
O FRACASSO DA LÓGICA PUNITIVA E SUA ULTRAPASSAGEM: Paulo Vaz enuncia que a forma específica de culturas ocidentais contemporâneas atribuírem, hoje, sentido ao crime produz a subjetividade da vítima virtual. Ou seja, qualquer indivíduo, conhecedor de notícias sobre o sofrimento de estranhos, concebe a sua rotina de trabalho e lazer como a possibilidade de ocorrer uma vitimização. Em "A mídia, a rotina e a vítima virtual", afirma que pensar a produção de subjetividade é reconhecer uma dívida com Michel Foucault. Em seu livro O uso dos prazeres, Foucault argumenta que: "é a partir da divisão socialmente instituída entre verdadeiro e falso que os indivíduos diferenciam entre o certo e o errado, o normal e o patológico e, assim, atribuem sentido e valor a seus atos e pensamentos, esforçando-se para agirem sobre si mesmos, isto é, tornarem-se sujeitos" (Foucault, 1984, citado por Vaz, 2009: 132).
Partindo do pressuposto de que a subjetivação como vítima virtual não é um destino inelutável, o autor se pergunta: afinal, o que incomoda nessa posição? Por se conceber como inocente em relação a uma regra de moralidade, a vítima virtual assume uma posição desengajada. Ela é inocente em relação a uma regra de moralidade; logo, seu único compromisso diante de um sofredor é a acusação de imoralidade alheia. Sua passividade inocente leva-a a uma atitude na qual a possibilidade de um futuro onde se possa sentir seguro não está vinculada aos ideais de igualdade e liberdade. Sua luta restringe-se ao "ressarcimento de danos passados, a acusação impotente no presente e a aposta na prudência individual como modo de garantir a manutenção, por muito tempo, dos prazeres" (Vaz, 2009: 145). Maria Lúcia Karam aborda a sintomática expansão global do poder punitivo que se registra desde as últimas décadas do século XX, enquanto a proposta de trocar liberdade por segurança tem avançado no interior dos Estados democráticos. Tomando em consideração a advertência de Nils Christie, afirma que todos que prezam a democracia devem estar atentos para que "o maior perigo da criminalidade nas sociedades contemporâneas não é o crime em si mesmo, mas sim a possibilidade de que o pretexto da repressão ao crime acabe por conduzir todas essas sociedades ao totalitarismo" (Christie, 1993, citado por Karam, 2009: 147).
Em "Controle social e criminalizações", após uma argumentação bastante convincente e cuidadosa, demonstra a irracionalidade do sistema penal, que não alivia as dores de quem sofre as perdas; muito pelo contrário, pela manipulação do sofrimento dos indivíduos, incentiva o sentimento de vingança. Maria Lucia Karam apresenta, então, a seguinte proposta para ultrapassagem de toda essa lógica punitiva:
É preciso afastar os medos, as vinganças, as culpas. Pôr de lado o egoísmo e buscar a convivência, a solidariedade e a compaixão. Repudiar o maniqueísmo que exclui, estimula desejos punitivos e nega a igualdade essencial entre todos os indivíduos. [...] É preciso encontrar os meios para fazer cessar a desigualdade e a exclusão. Assegurar que todas as pessoas tenham alimentação saudável, moradia confortável, educação, trabalho, cultura, lazer, bem-estar. Garantir a oportunidade de buscar a felicidade. Não porque isso, eventualmente traga mais segurança, e sim porque se trata de direitos fundamentais que devem ser garantidos a todos os indivíduos. É preciso reacender os ideais transformadores e compreender que não apenas os bens e as riquezas devem ser compartilhados e divididos de forma mais equitativa. Dito de outro modo, é preciso aprender a compartilhar também os desconfortos e desvios gerados no interior da sociedade, para poder tratá-los e superá-los não com a exclusão e a intolerância ou a marginalização daqueles que se comportam de forma ofensiva ou desagradável, mas antes com a inclusão, a integração, a tolerância, a compaixão e o perdão. É preciso pôr fim, abolir o sistema penal. Acreditar e lutar para que, um dia, a humanidade viva num mundo em que todos os indivíduos e seus direitos fundamentais sejam efetivamente respeitados; um mundo em que não existam prisões, em que nenhum Estado tenha o violento, danoso e doloroso poder punitivo; um mundo, portanto, em que ninguém mais carregue o estigma do criminoso, do mau ou doinimigo (Karam, 2009: 157).
À guisa de conclusão, sem medo de errar, a leitura de "Juventudes, subjetivações e violências" já entrou para a lista daqueles livros indispensáveis a todos aqueles que, hoje, estão comprometidos com as juventudes e com a formulação de novas políticas públicas para a infância e a adolescência. Para que, ao invés da repetição da tríade exclusão/penalização/criminalização, possamos pensar e gerar as condições de possibilidades para inclusão/educação/compaixão, para que milhões de vidas não sejam mais desperdiçadas e a potência juvenil possa sonhar, criar e construir uma nova história.

REFERÊNCIAS
Birman, J. (2009). Juventude e condição adolescente na contemporaneidade: uma leitura da sociedade brasileira de hoje. In: Bocayuva, H. & Nunes, S. A. (Orgs.). Juventudes, subjetivações e violências (pp. 25-40). Rio de Janeiro: Contra Capa. [ Links ]
Batista, V. M. (2009). A juventude na criminologia. In: Bocayuva, H. & Nunes, S. A. (Orgs.). Juventudes, subjetivações e violências (pp. 91-100). Rio de Janeiro: Contra Capa. [ Links ]
Del Priore, M. (2009). Crianças e adolescentes de ontem e de hoje. In: Bocayuva, H. & Nunes, S. A. (Orgs.).Juventudes, subjetivações e violências (pp. 11-24). Rio de Janeiro: Contra Capa. [ Links ]
Deleuze, G. (1992). Conversações 1972-1990. São Paulo: Editora 34. [ Links ]
Legendre, P. (1992). Les enfants du texte. Paris: Fayard. [ Links ]
Karam, M. L. (2009). Controle social e criminalizações. In: Bocayuva, H. & Nunes, S. A. (Orgs.). Juventudes, subjetivações e violências (pp. 147-158). Rio de Janeiro: Contra Capa. [ Links ]
Neder, G. (2009). Sentimento político, juventude e pobreza: subjetivações e exclusões. In: Bocayuva, H. & Nunes, S. A. (Orgs.). Juventudes, subjetivações e violências (pp. 75-90). Rio de Janeiro: Contra Capa. [ Links ]
Penna, J. C. (2009). Sujeitos da pena. In: Bocayuva, H. & Nunes, S. A. (Orgs.). Juventudes, subjetivações e violências (pp. 101-128). Rio de Janeiro: Contra Capa, [ Links ]
Vaz, P. (2009). A mídia, a rotina e a vítima virtual. In: Bocayuva, H. & Nunes, S. A. (Orgs.). Juventudes, subjetivações e violências (pp. 129-146). Rio de Janeiro: Contra Capa. [ Links ]

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2-Da tocaia à bala perdida - dois momentos da violência no Brasil

Eliana Rodrigues Pereira Mendes
Círculo Psicanalítico De Minas Gerais - CPMG


O Brasil, continental por sua extensão, tem apresentado, ao longo de sua história, movimentos de violência bem distintos, que vêm marcar um tempo específico de cada período vivido em sua constituição como país.

Quero destacar aqui dois desses momentos: o primeiro, aquele do Brasil rural, ligado aos valores tradicionais, que chamarei de violência da tocaia e da vingança, e o segundo, o do Brasil urbano, da concentração demográfica nas grandes cidades, que têm assistido à violência da bala perdida, sem alvo certo.

Para ilustrar esses dois momentos recorro à rica literatura brasileira, usando dois contos emblemáticos: "A hora e a vez de Augusto Matraga", de Guimarães Rosa e "O Cobrador"de Rubem Fonseca, ambos mineiros.

A Hora e a Vez de Augusto Matraga faz parte do primeiro livro de contos de seu autor, intitulado Sagarana, que, como o próprio nome indica, narra a saga pungente do povo brasileiro, e só veio a ser publicado em 1946. Apesar de trazer sempre para o texto a riqueza de uma linguagem popular, Guimarães Rosa não pode ser reduzido a um escritor regionalista. Seu vocabulário e seus temas são universais. Ele foi não apenas um pesquisador, mas muito mais um inventor, um criador da linguagem, com novas palavras e originais articulações sintáticas, que fazem de seu texto uma prosa poética.

Em "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", a crueldade dos jagunços e coronéis é manifestação de um conflito cósmico entre o bem e o mal, como entidades metafísicas e atributos transcendentes. Matraga passa do mal para o bem através de uma típica ascese religiosa, que inclui a penitência e a expiação, até resultar no auto-conhecimento. Seus conflitos são os mesmos de sagas e giestas heróicas, atravessadas pela temática da queda e da salvação. Matraga, ou Nhô Augusto Esteves, é o valente do sertão, que nada respeita a não ser sua própria vontade.

O conto começa com Nhô Augusto disputando uma prostituta num leilão de santo e saindo vencedor. Por achá-la sem atrativos, despreza-a, o que leva ao ódio o capiauzinho que era seu namorado, e que jura vingar-se dele, secretamente.

Matraga, é casado com Dionóra, bela mulher por ele subestimada, com quem tem uma filha. "Duro, doido e sem decência, como um bicho grande do mato. E em casa sempre fechado em si. Nem com a menina se importava. Dela, Dionóra, gostava, às vezes; da sua boca, das suas carnes, só. No mais, com os capangas, com mulheres perdidas, com o que houvesse de pior...... Fora assim desde menino, uma meninice à louca e à larga, de filho único de pai pancrácio. E ela, Dionóra, tivera culpa, por haver contrariado e desafiado a família toda para se casar........ Dionóra amara-o três anos, dois anos dera-os às dúvidas e o suportara nos demais. Agora, porém, tinha aparecido outro. Não, só de por aquilo na idéia já sentia medo... Nhô Augusto era capaz de matá-la como já dera conta do homem da foice, pego por vingança de algum ofendido... E o outro, era diferente"!

Até que seu Ovídio Moura leva Dionóra e a filha de Matraga. Manda a notícia pelo capanga de Nhô Augusto: "Volta você e fala com seu patrão que Siá Dona Dionóra não quer viver mais com ele, e que ela de agora por diante vai viver comigo, com o querer dos meus parentes todos e com a benção de Deus". Quim Recadeiro, que era assim o nome do capanga fala para o patrão: "Eu podia ter arresistido mas era negócio de honra, com sangue só para o dono, e pensei que o senhor podia não gostar".

"Fez na regra e feito, chama os meus homens!" Mas esses não vêem até ele, já que Matraga "tinha dívidas enormes, política do lado que perde, falta de crédito, as terras no desmando, as fazendas escritas por paga, e tudo de fazer ânsia por diante, sem portas, como parede branca." Os homens, chamados pelo Major Consilva, inimigo de seu pai, para ele se bandearam. É o mesmo Quim Recadeiro que diz: _ "Estão espalhando... o senhor dê o perdão para minha boca, que eu só falo o que é perciso - "estão dizendo que o senhor nunca respeitou filha dos outros, nem mulher casada e mais que é que nem cobra má, que quem vê tem de matar por obrigação."

Em Matraga "mal e mal, por debaixo da raiva, uma idéia resolveu por si: que antes de ir à Mombuca matar o Ovídio e a Dionóra, precisava de cair com o Major Consilva e os capangas. Senão, se deixasse resto por acabar, perdia a força. E foi."

Acontece que, ao chegar lá, o mesmo capiauzinho cuja namorada desdenhara, já se encontra entre o bando.

"Nhô Augusto fechou os olhos, de gastura, porque ela sabia que capiau de testa peluda, com o cabelo quase nos olhos, é uma raça de homem capaz de guardar o passado em casa, em lugar fresco do pote... e ir buscar da rua outras raivas pequenas, tudo para juntar à massa-mãe do ódio grande, até chegar o dia de tirar vingança".

Nhô Augusto, no enfrentamento com o bando é espancado, marcado como gado, na polpa glútea direita e já quase sem forças pula de um barranco alto. Dado como morto, um capanga diz "Arma uma cruz aqui mesmo, Orósio, para de noite ele não vir puxar teus pés... E deram as costas, regressando sob um sol mais próximo e maior."

Nhô Augusto, lá embaixo, é acolhido por um piedoso casal de pretos, que o trata como a um filho. Cuidam do seu corpo e do seu espírito: "Não faz assim, moço, não desespere. Reza, que Deus endireita tudo... P'ra tudo Deus dá o jeito." Trazem-lhe um padre, que ao fim de muitas palavras lhe diz: "Reza e trabalha, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina, com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria, cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua". Imbuído dessa idéia Nhô Augusto diz: "Eu vou pro céu, por bem ou por mal. E a minha vez há de chegar... Pra o céu eu vou, nem que seja a porrete".

Dedica-se então a ajudar os outros, na tentativa de reparação de seus erros. "Capinava para si e para os vizinhos do seu fogo, no querer de repartir, dando de amor o que possuísse." Em seus pensamentos se inquiria - "Desonrado, desmerecido, marcado a ferro feito rês... assim tão mole, tão sem homência, será que posso mesmo entrar no céu?"

É quando sabe da morte de Quim Recadeiro, morte-matada com mais de vinte balas no corpo, ao bater-se por causa dele, Nhô Augusto, que pensa em vingar o ajudante fiel - "Tem horas que fico pensando que, ao menos para honrar o Quim, que morreu por minha causa eu tinha ordem de fazer alguma vantagem... Mas eu tenho medo... já sei como é que o inferno é"...

As coisas estão nesse pé quando aparece em seu terreiro o bando de Seu Joãozinho Bem-Bem, homem temido e admirado em todo sertão.

- "É tudo gente limpa... Mocorongo eu não aceito comigo! Homem que atira atrás de toco não me serve... Gente minha só mata as mortes que eu mando, e morte que eu mando é só morte legal"! O bando se hospeda por uma noite com Nhô Augusto, que logo de estalo aprecia o chefe e o considera como um irmão, um duplo, uma alma gêmea. Mas logo sabe a que vieram: Vinham vingar a morte de um dos capangas. "O matador foi à traição - caiu no mundo, campou no pé... Mas a família vai pagar tudo, direito!"

Nhô Augusto tenta dissuadir seu Joãozinho Bem-Bem daquela morte. Pede que não se vingue na família do matador, cujo pai vem pedir, humildemente, que eles sejam poupados: "O senhor é poderoso, é dono do choro dos outros... Mas a Virgem Santíssima lhe dará o pago por não pisar em formiguinha do chão... Tem piedade de todos nós, seu Joãozinho Bem-Bem".

Mas este responde: "Lhe atender não posso, e com o senhor não quero nada, velho. É a regra... Senão, até quem é mais que havia de querer obedecer a um homem que não vinga gente sua, morta de traição?... É a regra... Um dos dois rapazinhos seus filhos tem de morrer, de tiro ou à faca, e o senhor pode escolher qual deles é que deve pagar pelo crime do irmão... E as moças... Para mim, não quero nenhuma, que mulher não me enfraquece: as mocinhas são para os meus homens"...

Nhô Augusto intercede pela família: - "Estou pedindo como amigo, mas a conversa é no sério, meu amigo, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem"... "Pois pedido nenhum desse atrevimento eu até hoje nunca que ouvi nem atendi!"

- "Pois então... meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, é fácil... Mas tem que passar primeiro por riba de eu defunto..."

Um capanga avança em Nhô Augusto, que se persigna e entra na luta.

- "Se entregue mano-velho, que eu não quero lhe matar"...

- "Joga a faca fora, dá viva a Deus e corre, seu Joãozinho Bem-Bem...

- Espera aí, minha gente, ajudem o meu parente ali, que vai morrer mais primeiro... Depois então posso me deitar"...

- "Estou no quase, mano velho. Morro, mas morro na faca do homem mais maneiro de junta e de mais coragem que eu já conheci... Eu sempre lhe disse que era bom mesmo, mano velho... É só assim que gente como eu tem licença de morrer... Quero acabar sendo amigos."

- "Feito, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem. Mas agora se arrepende dos pecados e morre logo como um cristão, que é para a gente poder ir junto... Perguntem quem aí que algum dia já ouviu falar no nome de Nhô Augusto Esteves, das Pindaíbas!... Põe a benção na minha filha... seja onde for que ela esteja... E Dionóra... Fala com Dionóra que está tudo em ordem! Depois, morreu".

O cobrador: O 2o conto, O Cobrador, termina o livro do mesmo nome do escritor Rubem Fonseca, de 1979. Delegado de polícia no Rio de Janeiro, seus contos são buscados na vida cotidiana dos grandes centros do país e seus personagens se constituem da imensa legião de seres à margem da sociedade, ocupados em tarefas miúdas ou grandiosas, mas sempre confrontados com as diferenças sociais.

O personagem principal de O Cobrador não tem nome próprio, embora faça a narração toda na 1a pessoa. "Na porta da rua, uma dentadura grande, embaixo escrito Dr.Carvalho, Dentista... Esperei meia hora, o dente doendo... Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muito.

Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado. Só rindo. Esses caras são muito engraçados. Vou ter de arrancar, ele disse, o senhor tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder os outros... Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê? Disse com pouco caso. São quatrocentos cruzeiros. Só rindo. Não tem não, meu chefe, eu disse. Não tem não o que? Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta. Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse........ Odeio dentistas, comerciantes, advogados, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteiro. Todos eles estão me devendo muito... Eu não pago mais nada, cansei de pagar! Gritei para ele, agora eu só cobro! Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta". Outra cena: "Me irritam esses sujeitos de Mercedes.

...Era de noite e não tinha ninguém perto. Ele estava vestido de branco, tinha ido jogar tênis num daqueles clubes bacanas que tem por ali. Eu vinha distraído quando a buzina tocou. Vi que o carro vinha devagar e fiquei parado na frente. Como é? Ele gritou. Saquei o 38 e atirei no parabrisa, mais para estrunchar o vidro do que para pegar o sujeito. Ele arrancou com o carro, para me pegar ou fugir, ou as duas coisas. Pulei pro lado, o carro passou, os pneus sibilando no asfalto. Parou logo adiante. Fui até lá. O sujeito estava deitado com a cabeça para trás, a cara e o peito cobertos por milhares de pequeninos estilhaços de vidro. Sangrava muito de um ferimento feio e a roupa branca dele já estava toda vermelha.

Não foi Deus nem o Diabo que me fez um vingador. Fui eu mesmo. Eu sou o Homem Pênis. Eu sou o Cobrador.

... Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela, fazenda, sorvete, bola de futebol... Numa noite, na saída de uma festa de ricos, encontra e subjuga um casal de convidados da festa. Ai, certas pessoas pensam que a vida é uma festa. Seguimos pelo Recreio dos Bandeirantes, até chegar a uma praia deserta. Saltamos. Deixei acesos os faróis. Nós não lhe fizemos nada, ele disse. Não fizeram? Só rindo. Senti o ódio inundando os meus ouvidos, minhas mãos, minha boca, meu corpo todo, um gosto de vinagre e lágrima. Ela está grávida, ele disse, apontando a mulher esguia e decidi ser misericordioso e disse, puf, em cima de onde achava que era o umbigo dela, desencarnei logo o feto. A mulher caiu emborcada. Encostei o revólver na têmpora dela e fiz ali um buraco de mina... O pescoço dele saiu rolando pela areia. Ergui alto o alfanje e recitei: Salve, o Cobrador!"

O conto evolui com a descoberta de Ana, que lhe segue os passos.

..."Tenho uma missão. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei. Ana me ajudou a ver. Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo... Matar um por um é coisa mística e disso me libertei. No baile de Natal mataremos convencionalmente os que pudermos. Será meu último gesto romântico inconseqüente. Escolhemos para iniciar a nova fase os compristas nojentos de um supermercado da zona sul. Serão mortos por uma bomba de alto poder explosivo... Explodirei as pessoas, adquirirei prestígio... O mundo inteiro saberá quem é você, quem somos nós, diz Ana. Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o que deve... Vamos ao Baile de Natal. Não faltará cerveja. Nem perus. Nem sangue. Fecha-se um ciclo da minha vida e abre-se outro".

No conto de Guimarães Rosa, os personagens evoluem em torno da honra e da vingança, que são dois imperativos imemorias das sociedades mais primitivas, onde os princípios organizadores situam-se no todo (holismo) e o relacional (relações de parentesco, pertença ao clã, etc.) construídos sobre os pilares da hierarquia e da tradição. Nessa organização social "as relações entre os homens são mais importantes, mais altamente valorizadas do que as relações entre homens e coisas". (Louis Dumont). Quando o indivíduo e a esfera econômica não têm existência autônoma e se encontram submetidos à lógica do estatuto social, reina o código de honra, o primado absoluto do prestígio e da estima social, bem como o código da vingança, significando este a subordinação do interesse pessoal ao interesse do grupo, a impossibilidade de romper a cadeia das alianças e das gerações, dos vivos e dos mortos, a obrigação de por em jogo a própria vida em nome do interesse superior do clã ou linhagem. A honra e a vingança exprimem diretamente a prioridade do conjunto coletivo sobre o agente individual.

Nesse tipo de universo, o ponto de honra é o que ordena a violência, ninguém pode, sob pena de ser desrespeitado, suportar uma afronta ou injúria: grandes insultos, ódios, traições conhecem, mais facilmente que nas sociedades modernas, um desfecho sangrento. Longe de manifestar qualquer impulsividade incontrolada, a belicosidade primitiva é uma lógica social, um modo de socialização consubstancial ao código de honra.

A vingança é o restabelecimento de um equilíbrio provisoriamente quebrado, a garantia de que a ordem do mundo não sofrerá alteração. A violência vingadora é uma instituição social, que visa equilibrar o mundo, instituir uma simetria entre vivos e mortos.

Num mundo onde as leis não são satisfatórias ou acessíveis, restaura-se a prática da justiça pessoal ou da vingança privada. Como a vingança é um dever imprescindível, todos os homens são iguais diante da violência, nenhum pode monopolizá-la ou renunciar a ela, nenhum será protegido por uma instância especializada. A vingança só desaparecerá com a entrada em cena das sociedades de ordem individualista e do Estado Moderno que lhes corresponde, definindo-se este, precisamente, pelo monopólio da força física legítima, pela penetração e pela proteção constante e regular da sociedade.

Já a especificidade da violência na cultura urbana contemporânea se dá a partir de duas teses: - A primeira, apresentada por Hannah Arendt (1994) afirma que o declínio do poder enquanto capacidade de agir em comum, no reconhecimento recíproco e na realização de trocas simbólicas, ressulta num incremento da violência que, por sua vez, é potencializada pela produção de instrumentos, multiplicando o vigor individual.

Nessa sociedade, que é a do Cobrador, aparece a atomização do social, com a emergência de novos valores que privilegiam a relação com as coisas.

- A outra tese, formulada por Calligaris (1997) postula que as violências exercidas sobre os corpos dos semelhantes, são a caricatura da forma de poder pré-moderno (servidão e escravidão) e efeito do fechamento do acesso às formas de poder moderno (poder sobre os objetos) à maioria dos brasileiros. Onde não se viabiliza, socialmente, o exercício efetivo de um poder, temos um convite à violência.

O individualismo produz 2 efeitos inversos e complementares: a indiferença e a sensibilidade ao outro. Os homens raramente se dedicam uns aos outros, mas mostram uma compaixão geral por todos os membros da espécie humana.

Enquanto Matraga chega ao ápice de sua ascese oferecendo seu corpo pelo corpo do outro (o jovem irmão do criminoso), o Cobrador, a princípio sofre porque se sente em débito consigo mesmo: não tem acesso aos objetos que possam lhe dizer quem ele é; ele não se sente um sujeito, já que se vê privado de tudo aquilo que cobra. Sem acesso aos objetos, torna-se ele mesmo um objeto sem valor, desqualificado, e a única saída é sua busca de qualificação como O Cobrador. Nesse papel, toma para si, simbolicamente, através da violência, o que lhe falta para subjetivar-se, ocupando o lugar do gozo que lhe diga respeito e que lhe é vedado.

Na sociedade rural, esse lugar de gozo é conhecido, já que através da inserção no mito coletivo, mesmo que seja na forma de seu direito de ser jagunço ou pária, esse lugar é garantido.

O Cobrador faz também uma tentativa de ascese quando sua violência não é mais a esmo e sem vinculações sociais. Agora ele já tem um motivo para matar: ele se insere, com a ajuda da namorada politizada, num clã imaginário de despossuídos, que deverá conquistar à força, o que lhes falta em confronto com os possuidores.

Alguma coisa, porém, parece unir esses 2 personagens. Privados dos nomes do pai, tanto no particular (Matraga é filho de um pai pancrário e o Cobrador de um pai ausente), quanto no social (sem acesso à lei geral, que não os protege), não estariam eles tentando encarnar, no real, vicariamente, o pai primevo imaginário, todo poderoso, que distribui justiça por si mesmo?

BIBLIOGRAFIA

ROSA, Guimarães - A Hora e a Vez de Augusto Matraga, in Sagarana, Círculo do Livro, São Paulo, 1984.
WILLER, Cláudio Guimarães Rosa e "Sagarana", in Sagarana, Círculo do Livro, São Paulo, 1984.
FONSECA, Rubem - O Cobrador, in O Cobrador, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1979.
LIPOVETSKY, Gilles - A Era do Vazio, ensaio, sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa, Relógio D'Agua.
DUMONT, Louis - Homo Aequalis. Paris, Gallimard, 1977
ARENDT, Hannah - Sobre a Violência. Rio de Janeiro. Relume - Dumará, 1994.
CALLIGARIS, Contardo - Folha de São Paulo, São Paulo, 22 de setembro de 1996, Caderno Mais.
FLEIG, Mário - Os Efeitos da Modernidade: a violência e as figurações da lei na cultura, in Psicanálise e colonização, leituras do sintoma social no Brasil. Porto Alegre, Artes e Ofícios Editora Ltda, 1999.



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